quarta-feira, 26 de maio de 2010

Frango não é Galinha ou sobre a mutação lingüística dos significados de certos significantes

Interessante notar que a reflexão filosófica sobre a linguagem pode ter origem nos âmbientes mais inusitados. Um dia desses estava para almoçar com umas amigas. Enquanto a refeição era finalizada uma delas indagou: 
- quanto a carne, é frango ou galinha?  Depois de um breve silêncio, espantados indagamos em uníssono: - mas qual é a diferença? Nossa amiga retrucou: - como frango, mas não como galinha! Gargalhadas a parte, indaguei: - Por favor, pode explicar os seus significados para os significantes frango e galinha? Ela prontamente atendeu meu pedido. Como não lembro as palavras utilizadas, vou no sentido que a memória preservou: para ela, o significado de galinha tem por requisito a forma da ave, já o de frango tem por requisito a sua não forma de ave, ou seja, in natura toda ave é significada pela expressão galinha, contudo, quando processada, toda ave passa a ser significada pela expressão frango.

O que pode ser notado nessa ocasião é um processo de suma importância para a Filosofia da Linguagem, ou seja, os modos como o mesmo significante começa a sofrer o impacto da contingência de seus possíveis significados.

Historicamente um processo análogo ocorreu na Grécia do Século V a.C. Com a instabilidade causada pela Guerrra do Peloponeso entre Esparta e Atenas (431 a 404 a.C) e agravada com a morte de Péricles , líder e modelo de estadista ateniense (429 a.C.), as bases axiológicas do homem grego de então (aristocrata, ruralista e tradicionalista) passaram a ser contestadas pelo condidato rival (burguês, urbano e contestador), influenciando o processo de significação para os significantes correntes, levando a um giro copernicano quanto ao valor das expressões divinas e profanas. De repente o que era dos céus veio a terra e o que era mudano elevou-se ao cósmos. Por exemplo, o ideal divino de justiça valorado positivamente pela força da tradição em épocas de paz passou a ser tachado de antiquado e paulatinamente substituido pelo referencial humano de lei agora positivamente valorado pela força das necessidades imediatas de uma época pós-bélica.

Enteder esse processso é importantíssimo para compreender nossa visão de mundo e nossas formas de ação segundo ela, o que não se dá fora e sim dentro de um contexto linguístico. Nesse sentido, entender porque frango pode ou não ser significado enquanto sinônimo de galinha deixa de ser um momento cômico para se revestir de importância filosófica.



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