quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Pergunta da MTV Brasil sobre o melhor chamou atenção


Ontem pela manhã, como sempre costumo fazer, tomo o café da manhã ao som da MTV Brasil. Como é sabido, já se foi o tempo que essa emissora era exclusivamente musical, mas naquele momento estava passando o programa LAB, sob a banda britânica COLDPLAY, e uma enquete chamou minha atenção: qual o melhor álbum deles?


Essa pergunta ilumina um problema que geralmente resta despercebido nas sombras do texto questionador, trata-se da problemática do valor. O valor pode ser pensado como um idéia advinda de um estado relacional entre coisas, pois o que vale, vale sempre num contexto, em face de um bem ou de um sistema valorativo referencial, esse convencional e relativo, assim como aquele (CASTRO Jr. Torquato. A pragmática das nulidades e a teoria do ato jurídico inexistente. São Paulo: Noesis, 2009. p.161).


O que devemos reter é que os valores perdem e adquirem peso em dada escala valorativa em razão da contingência de seus usuários e das coisas ou bens a ela referidos relacionalmente, pois esse será nosso critério de análise.


Pois bem, podemos pensar na questão da enquete em dois sentidos:


a) cronológico - pois a produção discográfica do Coldplay ocorreu de forma historicizada em uma escala de tempo x, da seguinte forma:


1. Parachutes (2000)

2. a rush of a blood to the head (2003)

3. X & Y (2005)

4. Viva la vida (2008)


Dessa forma, os contextos de composição, produção e gravação dos álbuns são diferentes entre si o que implica uma mudança significativa na possibilidade de exercer-mos razoavelmente uma valoração que possa servir de resposta à enquete.


Alem disso, a sucessão cronológica da discografia permite apontar para uma escala de desenvolvimento da banda em termos de composição, ou seja, o álbum de 2000 surge como um lastro de sustentação para a construção do álbum de 2005 e assim sucessivamente até o recentemente editado em 2008, o que trás a dificuldade de valorar qual deles é o melhor, a não ser ocultando essa questão relevante.



b) Psicológico - os membros do Coldplay sustentam a formação conjunta da banda desde o primeiro álbum, contudo, mesmo que seus nomes civis continuem os mesmos, suas personalidades mudaram ao sabor das experiências vividas e das influências ambientais impressas. Ou seja, escolher o melhor álbum deles seria pressupor suas personalidades como invariáveis, o que não parece razoável.


Em razão disso tudo, nos parece que a enquente enquanto pretende uma pergunta não pode ao mesmo tempo desejá-la como sendo razoável, o que não indica necessariamente que não haja resposta para a mesma.


Veja bem, posso dizer que o álbum X & Y (2005) é o melhor para mim, mas isso não desconsidera nenhuma opção por um dos outros três álbuns concorrentes, o que resulta na total irrelevância dos índices da enquete proposta, pois falta a essa o que todo valor possui: a noção intrínseca de sua relatividade e a necessária referencia ao contexto, a um bem e a uma escala referente de valores.


Por isso a máxima da linguagem comum: gosto não se discute! A sabedoria popular, mesmo sem possuir o apoio das categorias e métodos comuns à reflexão da filosofia da linguagem, já havia intuído a não razoabilidade de se questionar acerca das preferências pessoais. Sendo assim, gostamos porque gostamos e ninguém tem nada com isso!

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