segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Livro de sociólogas alagoanas é uma parceria de fólego

SOBRE O MAIS ALAGOANO DOS MOSAICOS[1]

por Pablo R. de L. Falcão

Uma pequena ação pode compor novos mosaicos sobre “violência e criminalidade”[1], assim fui convidado, enquanto leitor, pelas autoras Ruth Vasconcelos e Elaine Pimentel, por isso, enquanto contribuinte de suas reflexões, trago aqui minha pequena peça vitrificada, com votos de que esse painel não pare nunca de crescer, exceto pela esperança compartilhada com as ilustres pesquisadoras de que “um mundo melhor”, mas tolerante e pacífico, possa pô-lo um legítimo fim[2].

Duas mulheres plurais: inteligentes, dedicadas, engajadas, femininas, simpáticas e cheias de vontade de viver. Dois homens plurais: companheiros que sabem, no silêncio e à margem, abrir caminho para que o brilho que emana de suas companheiras possa reluzir com intensidade. Duas famílias plurais: pais, mães, irmãos e irmãs, tios e tias, primos e primas, diferentes subjetividades que eram felizes simplesmente por vê-las sorrir. Duas centenas de amigos plurais: portando seus exemplares e perfilados por variados períodos de espera, unidos pelo desejo de colher suas assinaturas em um momento tão especial, mesmo que todos pudessem alcançar seus objetivos a qualquer tempo pós-lançamento.

Tal pluralidade é o dado empírico mais perceptível de que somos todos diferentes, mas que, apesar de nossas peculiaridades, comungamos de laços de sensibilidade que nos são bem comuns, “teias afetivas”[3] que nos levam a sermos espelhos uns dos outros, nesse ambiente de mais de seis bilhões de estranhos e diferentes que, paradoxalmente, denominam-se de humanidade.

Como bem colocaram Ruth e Elaine, “é [...] nos contornos da ação humana e social que se faz possível a construção de uma cultura de paz fundada no imperativo do reconhecimento de mulheres e homens como sujeitos de direitos e detentores de uma dignidade inegociável”[4], pois o mundo social não está apartado do mundo natural e o âmbito privado do âmbito público como pensado por um positivismo míope para a complexidade desse contexto repleto de interatividades, o qual podemos metaforicamente chamar de mosaico existencial.

Os relatos históricos registrados durante nossa passagem por esse planeta não sustentam a idéia de que o mundo sempre foi assim ou de que necessariamente continuará sendo assim, o que nos permite esperançar conjuntamente com as autoras: olhar para luzes e não para sombrios fins de túneis, para horizontes ao invés de muros altos, comumente decorados de forma bizarra por desumanas cercas elétricas e frios circuitos de filmagem; sentar sob a copa de uma árvore na calçada de casa por sentir que o melhor tempo para se viver dignamente é o tempo sem relógio, sem celular, sem horários pré-agendados, com possibilidade abundante de olhar no olho do outro e dizer: - bom dia, boa tarde, boa noite, durma tranquilamente e acorde melhor do que hoje; passear pela noite e desejar a falta de iluminação pública só para desfrutar da luz do luar e do céu estrelado com passos lentos e confiantes; observar a verba antes destinada para a área de segurança pública florir em parques ambientais onde seres de todas as espécies, cores, idades e línguas possam conviver no aconchego umas das outras e não na angústia psicótica de temer sem razão plausível; constatar que a força policial resgatou sua legitimidade de outrora, sentindo-se e sendo percebida como comunitária, pois chamada pelo nome, encontrando sempre mão vazias e estendidas à espera de um cumprimento salutar; um mundo de pacificação tolerante que caminha para um mundo de afetuosidade fraternal.

O que seriam dos projetos humanos se não fossem os sonhos humanos? Das realizações de nossa espécie se não fosse nossa capacidade natural de sonhar? Indago isso, pois o “mosaico” da Ruth e da Elaine – como deve ser grafado em bom alagoês – foi construído artisticamente: deixando a cor cinza da argamassa (violência e criminalidade) para o contato com a parede (razão) e nos presenteando com o colorido das superfícies polidas (dignidade) para o contato perene com a farta brisa de Maceió (emoção), o que nos levará a concluir, em bom estilo português, com um pertinente fado sociológico: “não disparem sobre o(s) utopista(s)”[5]!

[1] VASCONCELOS, Ruth e PIMENTEL, Elaine. Op.cit. p.232.
[2] VASCONCELOS, Ruth e PIMENTEL, Elaine. Op.cit. p.22.
[3] PIMENTEL, Elaine. Amor bandido: as teias afetivas que envolvem a mulher no tráfico de drogas. Maceió: Edufal, 2008.
[4] VASCONCELOS, Ruth e PIMENTEL, Elaine. Op.cit. p.232.
[5] Título original “não disparem sobre o utopista”, capítulo 6, p. 329, grifo nosso In: SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente contra o desperdício da experiência. 5. ed. São Paulo: Cortês, 2005.

8 comentários:

  1. Querido Pablo,

    Fiquei muito emocionada com suas belas palavras sobre nosso livro. A impressão que tenho é que você compreendeu bem a nossa proposta de um mosaico em aberto, via para um diálogo constante, sem verdades, sem receitas, sem mágicas. A realidade na sua fragmentação mais simples, mais cotidiana, refletida no desejo de cada um que, como nós, sonha com um mundo melhor e trabalha pela promoção da paz e do reconhecimento da dignidade humana.

    Obrigada por comentário tão profundo. Vindo de um leitor tão exigente como você, é uma honra.

    Beijos!

    Elaine

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  2. Salve !
    Muito obrigada por sua visita e por palavras tão carinhosas para com o meu trabalho. Volte mais vezes, FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... terá sempre uma história para contar.
    Saudações florestais
    http://www.silnunesprof.blogspot.com

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  3. Caro Pablo, fico agradecida pelas suas tão belas palavras, marcadas por tanta sensibilidade. Ao escrever e publicar nossos pensamentos não temos idéia dos efeitos que possam provocar no outro. Nosso livro pode ser visto como um convite à reflexão; assim como um convite para que os(as) leitores(as) coloquem sua pedrinha colorida, ou preta ou branca, neste mosaico planejado por nós duas com tanto amor e carinho. Na verdade, este livro revela, antes de tudo, nossa esperança de viver num mundo onde todos(as) possam viver com dignidade e ser reconhecidos em seus direitos. Muito obrigada por partilhar conosco aqueles momentos inesquecíveis da "Conversa com as autoras" e da “Noite de autógrafos”, brilhantemente descritos por você em seu blog. Receba um forte abraço, Ruth Vasconcelos.

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  4. Querido Pablo,
    Achei muito interessante o seu comentário sobre o livro de Elaine e Ruth,belas palavras de elogios e carinho,muito bem merecidos com certeza.Cada dia mais admiro sua brilhante inteligência e seu modo de ser.Deus o abençoe e ilumine seu caminho para um lindo futuro.Um beijão da titia que muito lhe admira.

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  5. Cara Ruth

    Eu que agradeço pela oportunidade de diálogo com uma pensadora de fólego como vc. abraços e votos de sucessso sempre

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  6. Queria Tia Elunia

    Obrigado pela visita e pelo carinho de sempre, suas orações sempre ajudam nos momentos difíceis. Bjos de seu sobrinho

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  7. Caríssimo Pablo,

    Gostaria de parabenizá-lo pela poética descrição do lançamento do livro de Ruth e Elaine.
    Fico muito feliz quando alguém, ao falar de um acontecimento que também presenciei, traz uma interpretação nova ou mostra o ocorrido por uma perspectiva mais interessante.
    Foi exatamente isso o que aconteceu! Sendo assim, estou feliz. É bom ver o mundo, esse mosaico desmedido, pela perspectiva da pluralidade ou, melhor dizendo, singularidade de cada um: subjetividade, numa palavra.
    Minhas “ciências sociais” não vão muito além disso, razão pela qual me sinto muito mais confortável na posição de aluno, leitor, admirador e, em relação a vocês, fã!
    Um grande abraço do primo.

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  8. vale, primo beto, pelo carinho e apoio de sempre

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