segunda-feira, 2 de março de 2009

Sabores variados no novo U2

Toda banda que chega ao 12° álbum da carreira trás consigo sabores e dissabores na degustação de sua discografia com três longas décadas de idade. O topos argumentativo no sentido de que “o tempo não perdoa” parece indicar que ele não perdoa mesmo, nem mesmo os gigantes do cenário musical, como é o exemplo do U2 nesse seu mais recente “No line on the horizon”.

Evidente que o disco é bem composto, arranjado, executado, produzido e gravado, mas não é, nem de longe, um dos melhores dos cinqüentões irlandeses. Mas isso não quer dizer que ele não mereça ser apreciado, os sabores desses mestres da cozinha sonora ainda estão lá, em alguns momentos com mais intensidade, em outros com menos, como em toda refeição auditiva, mas ainda é um album do U2.

Vamos tentar fazer jus ao nosso paladar!

O cd abre com a faixa que intitula o álbum. Reverberações climáticas no estilo do velho e bom U2. Bono escolhe uma linha vocal bem adequada ao tema panfletário da canção, entrecortada por um refrão que beira o aconselhamento. Seria um retorno ao messianismo da fase “October”? Eu diria que assim ela foi por mim saboreada, já que todas as faixas remetem aos temperos utilizados em outros momentos fonográficos da banda, como veremos na seqüência.

A segunda faixa “magnificent” chama a atenção pelo uso da tecnologia, agora bem mais amena do que seu uso na fase “Achtung Baby”. Belo trabalho de guitarra de Edge, com controle total sobre as repetições das suas várias camadas de delay. O sabor transporta o ouvinte imediatamente para “The unforgettable fire”.

“Moment of surrender” remete a velha temática tratada na faixa “surrender” de “War”, só que apresentada de forma mais requintada, bem ao estilo da interpretação vocal jazz-blues de algumas canções de “All that you can't leave behind”, enquanto Edge volta a usar o “bottleneck” para somá-lo agora à textura eletrônica que já acompanha a banda faz um bom tempo.

A faixa que segue, intitulada “Unknow caller”, é um típico prato servido em “October”, adocicado com pitadas de “All that you can't leave behind”.

“I’ll Go crazy if i don’t go crazy tonight” remete muito ao album “All that you can't leave behind”, o que nos leva a pensar que o U2 tenha voltado para o ponto de virada que pariu o “How to dismantle an atomic bomb”. Seria um pedido de desculpas não verbalizado? Quem sabe, talvez seja, talvez não.

O riff de “get on your boots” chega aos ouvidos como uma brisa setentista, apesar do filtro que Edge usou no som da guitarra tornado a mesma mais contemporânea, enquanto a linha de vocal de Bono oscila entre a psicodelia do refrão, bem anos 60, e a levada mais falada do RAP, bem anos 90, em um mix de Beatles com as Casas Noturnas da velha e sempre atual Europa.

Na mesma seqüência de inspiração chega a “funkeira” e “setentista” “Stand up comedy”, numa levada bem U2 para arenas. Inova pelo riff de guitarra, Edge vem optando por esse modelo de estrutura musical desde “How to dismantle an atomic bomb”, variando um pouco as suas esperadas reverberações de plantão. Bela pitada de sal no tempero.

Intitulada de “FEZ – being born”, chegamos a um momento mais experimental, parece bem o U2 das trilhas sonoras cinematográficas. Elementos de “Achtung Baby” são mesclados aos de “Zooropa”, tudo no estilo música para curtir paisagens, enquanto os vocais de Bono remetem ao clima de outono do introspectivo “October”.

“White as snow” parece uma música étnica, sombria e calma, remete a alguns temas “The Joshua tree” que buscam flertar com outros de “All that you can't leave behind”. A sonoridade escolhida por Edge, entre guitarras e pianos, para servir de base estrutural para a canção parece perfeita para Bono destilar sua verve poética, coisa que ela faz com a maestria de poucos.

A penúltima faixa é “Breath” e vem bem na trilha de mixagens de vários momentos do U2. O que inova, mas ao mesmo tempo confunde, é a linha de vocal escolhida por Bono, já que em alguns momentos ele parece estar à frente da banda e eu outros parece reduzir o ritmo para esperá-la. Agridoce é a palavra mais apropriada que achei para expressar o que senti.

Finalizando o Cd, temos “Cedars of Lebanon”, um tema típico do “Zooropa” mas que veio com o freio de mão puxado, bem no estilo refeição para incluir cardíacos na audiência, ou seja, com pouco sal. Mais uma que flerta com o estilo de música eletrônica “lounge” que ganhou no Brasil o codinome pejorativo de “música de elevador”, o que não se aplica negativamente a essa sobremesa irlandesa.

Espero que vocês degustem o CD e compartilhem aqui suas impressões gastronômico-auditivas!