terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Sobre duvidar sistematicamente, suas razões e conseqüências


Médico e Filósofo grego do Século II, Pirro de Elís (360-270 a.C.) teve duas de suas obras resgatadas no Século XVI (Hipotitoses Pirrônicas e Adversus Mathematicos), contribuindo para o resgate do pensamento cético nos primórdios da filosofia moderna, tornado-se um dos maiores desafios dessa, a parti daí, refutá-lo. Por que terá sido?


Sexto distinguia três espéceis de Filosofias: a) Filosofia Estóica, Epicurista e Platonista (que alegava ter encontrado a verdade), b) Filosofia Acadêmica (que negava a posibilidade de encontrá-la) e a Filosofia Cética (que ainda procurava a mesma), como a grande maioria dos filósofos modernos foi formada em uma educação platônico-aristotélica-cristã, fortemente influenciada pelo Estoicismo, não é de estranhar o antagonismo entre suas convicções e aquelas advindas das propostas do ceticismo pirrônico.


A regra principal do pirronismo é a da "suspensão do juízo", advinda de seu princípio metodológico que é o da "impossibilidade de afirmar ou negar algo sobre o mundo ou as coisas mundanas", já que a relação entre as coisas que os sentidos humanos percebem (fenômenos) e aquelas que a inteligência concebe (númeno) é sempre precária, o que leva o cético a sempre comparar e opor entre si de todas as maneiras possíveis as opiniões resultantes dessa tensão.


Como inexiste um critério que possa decidir acerca da qualidade superior de uma dessas precárias opiniões, o cético postula pela equivalência (isosthenia) de todas elas e decide-se por não emitir qualquer juízo de valor sobre as mesmas (afasia) e, como consequência, suspende sua aptidão de julgar (epoché), decobrindo-se livre-se das inquietações do drama de ter de decidir, alcançando asim a tranquilidade da alma (ataraxia). Mas, por que?


Sexto responde que todos aqueles que matêm uma opinião firme sobre algo encontra-se perturbado em dois sentidos: a) por estarem privados por algo que julgam ser bom e por-se a buscá-lo diuturnamente e b) quando o encontram, por estarem em aflição constante resultante do medo de perder tal bem conquistado. Por consequência, Pirro conclui que apenas aqueles que se abstêem em julgar as coisas do mundo enquanto boas ou más, encontram-se livres de evitá-las ou buscá-las avidamente, e, por isso, não se pertubam jamais.


Em resumo, o Ceticismo Pirrônico ou Pirronismo, não duvida dos fenômenos, mas apenas daquilo que se afirma dogmaticamente para além dos fenômenos (dogmatismo). Em um contexto democrático, onde são exercitados os princípios da igualdade e da liberdade, tal proposta pode levar a um convívio tolerante entre os vários padrões ético-sociais e a uma instância crítica denunciadora da tentativa de alguma desses tentar torna-se egemônico. Pense nisso!


PS. Texto construído tendo por base o artigo de CONTE, Jaimir. O início: Sexto Empírico e o Ceticismo Pirrônico. In: CULT - Revista Brasileira de Cultura, nº 121, ano 11. Jan/2008.